domingo, 25 de janeiro de 2026

CORDEL PERSEGUIDO EM SÃO PAULO







Hoje no aniversário da Pauliceia Desvairada de 472 anos, o cordel era para estar na Avenida Paulista, embelezando ainda mais a grandeza desta megalópole, porém nas duas vezes que fomos festejar seu aniversário, com a presença de diversos poetas e poetisas, fomos de maneira abrupta e violenta abordados e instados a retirar o nosso material, sob pena de ser recolhido e, se falou até de condução para a delegacia.

A primeira vez aconteceu em janeiro de 2017, quando João Gomes de Sá e eu fomos mostrar nosso trabalho na avenida, que domingo se fecha para os carros e se abre para a cultura, ao menos deveria ser, porque para nós, não foi assim, fomos praticamente escorraçados da Paulista pela Guarda Civil Metropolitana. Com medo de sermos ameaçados novamente, buscamos os meios legais de conseguirmos uma autorização para o cordel, apesar de existir uma lei que nos autoriza, ainda assim nunca fomos autorizados.

A segunda abordagem aconteceu em 25 de janeiro de 2024, quando vários poetas e poetisas estavam na frente do Sesc Avenida Paulista e fomos abordados mais uma vez, agora pela Polícia Militar, para retirarmos imediatamente os cordéis, pois segundo eles estavam atrapalhando a via, o que não é verdade, e senão fosse o @sescavenidapaulista que interveio ao nosso favor, e autorizou a praticamente colocarmos as nossas banquinhas dentro de sua área, teríamos todo o material apreendido e, talvez fossemos conduzidos a delegacia, porque um policial ainda perguntou se nós estávamos resistindo a obedecer? Mais uma vez procuramos as vias legais e ficamos sem nenhuma resposta, embora tenha havido uma reunião na subprefeitura. Agora na festa da cidade, ficamos de longe, sem que o cordel participe desta grandiosa comemoração. Perde a cultura, perde a cidade, perde a festa.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

FRANKLIN MAXADO: O POETA TRANSGRESSOR

 












 

Hoje tive a felicidade, de juntamente com outros poetas, prestigiar o baluarte Franklin Maxado, o baiano de Feira de Santana, jornalista e advogado, que no auto dos seus oitenta anos, carrega uma carga histórica de militância na defesa do cordel. Foi semeador deste gênero literário nos heroicos anos 70, quando vendendo seus folhetos pelas praças de São Paulo, sofria os achaques da Polícia, viu de perto os grilhões da ditadura, por ser um literato de pena afiada, capaz de fazer críticas ácidas através de suas metáforas poéticas.

Franklin Maxado sempre se arriscou pelo que acredita. Se hoje colhemos frutos de cordel na Pauliceia Desvairada, devemos também a semeadura desta autarquia abnegada. Na década de oitenta o poeta Santa Helena se candidatou para uma vaga na Academia Brasileira de Letras e hoje Franklin nos contou, que para ser ainda mais arrojado, se lançou a presidente em plena luta pelas Diretas Já. A notícia se espalhou porque Carlos Drummond de Andrade fez um artigo que saiu nos principais jornais do país. Ainda fez dois comícios, porque as pessoas começaram a levar a sério, começou a chegar muitos nordestinos em São Paulo pedindo emprego ao ilustre candidato. Na época este fato inusitado chamou atenção. Para se ver livre, declarou apoio a Tancredo Neves e encerrou a campanha.

Versátil nos temas, @franklinmaxado escreve sobre os mais variados assuntos, com títulos que chamam a atenção do leitor. Hoje lançou na @livrariadasperdizes POR QUE NÃO LANÇAR O “DIA DA MESTIÇAGEM?” CACIMBA MATAVA A SEDE NA SELVA DE CIMENTO COM DOUTOR MOZART e SÃO PAULO É A BABEL DO FUTURO TESTAMENTO. Com o seu jeito irreverente tem contribuído imensamente para divulgação do cordel. Tivemos o prazer de encontrar neste evento maravilhoso os poetas @cacalopes @poetamoreiradeacopiara @ronnaldodeandradespina @josevejabemdapaulista @graziela_barduco e uma plateia linda que foi prestigiá-lo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

A HERANÇA POÉTICA

 


Olhando a tez do seu rosto

Eu fico até confundido

Porque as pessoas dizem

Que igual fui esculpido.

As carquilhas de papai

Mostram que meu rosto vai

Ficar muito parecido.


Trouxe em meu DNA 

Uma série de herança

Que o tempo trabalhou

Para me dar confiança.

Outra parte eu lapidei

E com isto conquistei

Projetar uma mudança.


O cara que papai tem

Eu já projeto na minha

E quem conhece um de nós

Simplesmente se advinha

Que na condição de filho

Herdei de papai um brilho

Que comigo hoje caminha.


Ser poeta e tocar

Cavaquinho e violão

São marcas que ele imprimiu 

Desde a minha geração

E vão caminhar comigo

Para habitar meu jazigo

Na derradeira estação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O OFÍCIO DA ESCRITA

 


Quando abracei o ofício de escrita, não sabia em qual caminho estava entrando, afinal tudo que estamos começando é desconhecido e à medida que vamos mergulhando no fazer, descortinamos os mistérios que se apresentam à nossa frente. Fui tomando consciência que não dominava ainda as técnicas de cordel, e com isso estudando para compreender tudo que envolve este fazer poético.

A técnica do fazer cordelístico é complexa, mas é possível dominá-la. Todavia é preciso ter humildade para pedir que os outros poetas e poetisas leiam seu escrito para que possam perceber as falhas que não conseguimos enxergar. Isto não é demérito nenhum, ao contrário, prova a sua capacidade de reconhecer seus limites. A falha faz parte da vida de qualquer ser humano. É a prática constante que vai nos esmerando, daí devemos persistir na construção poética, que gradativamente a produção vai melhorando, agora tudo isso acompanhado com a leitura para o enriquecimento de vocabulário e, assim variar nas rimas, para que sua escrita seja cada vez mais embelezada e passe a ser desejada pelos leitores e leitoras.

É preciso se respeitar como profissional para que as pessoas olhem de forma também diferenciada. As pessoas percebem quando você cuida do seu ofício com zelo e carinho. Quando há respeito na produção da obra, há respeito por parte dos leitores e leitoras.

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

VI PAPAI RECLAMANDO DA SECURA...

 


Papai sempre chamou pela janela

Uma vaca bonita e parideira

Escutando a voz vinha de carreira

Atender apressada na cancela.

Certo dia gritou, mas nada dela

Não berrou, nem correu na direção

Procurou-a, encontrou-a sobre o chão

Estirada, já morta a criatura

Vi papai reclamando da secura

Que sequestra a beleza do sertão.

 

Escrevi este poema em dezembro de 2023 sobre o período que ficou sem chover aqui no Nordeste da Bahia, e fez aumentar a dificuldade em relação a criação de animais, devido à falta de comida. Nos dias atuais existem muitas possibilidades de convivência com a estiagem, o que ainda falta é as pessoas colocarem os conhecimentos em prática. Conviver com o clima seco e quente não é novidade em nenhum canto, porque com a ajuda da ciência, tudo isso foi superado, tendo em vista ser possível se adequar e superar a escassez de chuva.

Apesar de se conhecer o caminho, ainda existe resistência em criar os animais adequados a esta região. A secura me impulsionou a escrever estas estrofes em decassílabo, pois como disse o poeta: “a poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe.” Este folheto traz dois poemas a partir de motes. Além deste que dá título ao cordel, o segundo é: Sua visão de pobreza / Há muito foi superada. Quem conhece essa literatura genuinamente brasileira, sabe que ela nunca ficou sem opinar sobre as questões importantes do país. A leitura é o caminho mais seguro em vista de um aprendizado que proporcione saberes.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ACORDEM, IMBECILIZADOS

 


É triste vermos tanta imbecilização, e parece que o veneno da idiotia se espalha feito rastilho de pólvora. Os seres que não pensam e engolem qualquer discurso sem analisar nada posto pelos estadunidenses quando se dizem preocupados com a democracia em algum canto do mundo. Os Estados Unidos nunca tiveram o menor pudor de se aliar com os piores ditadores, desde que estes se dispusessem a se tornar seus serviçais e aceitarem a entregar as riquezas de seus países.

O império se julga a polícia do planeta, erigiu e manteve ditadores, usaram-nos até quando não serviram mais ao imperialismo, começaram a minar o poder que ele mesmo lhe concedeu. Levaram Saddam Hussein ao cargo de presidente do Iraque, depois inventaram as armas de destruição em massa e lhe enforcaram. Colocaram os talibãs no poder no Afeganistão, treinaram Bin Laden, em seguida o mataram. Apoiaram Somoza na Nicarágua; Reza Pahlavi no Irã; Suharto na Indonésia; Mobutu no Zaire; Bashar al-Assad na Síria e mantem estreita relação com o ditador da Arábia Saudita Mohammad bin Salman. Os que aplaudem sua tirania nunca estranharam. Exceto com o da Arábia Saudita, descartou todos como lixo, por não servirem mais ao interesse do império.

Temos muitas críticas a Nicolás Maduro, mas o sequestro dele não tem nada a ver com democracia, está umbilicalmente ligado ao Petróleo que este país tem produz em grande quantidade. Se estivesse sido entregue aos Estados Unidos, Maduro poderia matar o povo da Venezuela todinho que nem se importariam, mas o regime venezuelano é nacionalista aí começaram a perseguição: primeiro a difamação de que era chefe de um cartel, depois a morte de inocentes no mar do Caribe, em seguida o sequestro dele e num instante abandonaram o discurso de cartel de drogas. A população mundial já tinha bebido o veneno da mentira e os incautos acreditaram que era por causa de democracia. As pessoas precisam acordar e parar de engolir tudo que a imprensa coloca como verdade. Nunca foi sobre democracia e sempre sobre roubo de petróleo, terras raras e outras riquezas mais.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

NÃO É SÓ FAMA NEM DINHEIRO

 


“Muitos costumam dizer que a vida é dura para quem é mole.” Não sei se essa máxima é tão verdadeira, mas em todo caso, expus aqui para ao menos nos servir de inspiração. Ninguém é obrigado a ser forte o tempo inteiro, lutar tanto por uma coisa, sentir que é escolha visceral, ainda assim não consegue, por mais que batalhe ardorosamente. Para os que nascem em berço de ouro, chegam ao mundo com o caminho aplainado, todavia as camadas mais pobres vivem padecendo do nascer ao morrer, são vítimas constantes tanto da sociedade como injustiçados pelas instituições que deveriam protegê-los.

Permanecer firme em um foco, é uma façanha digna de admiração porque quando a vida adulta chega, precisa prover o próprio sustento e insistir em algo que o retorno financeiro demore, se torna complicado para um adulto, sobretudo se escolher a área da cultura, se o dinheiro não vier logo, será chamado de preguiçoso, vagabundo, encostado, malando sem futuro que não quer nada com nada. Se der certo e o resultado financeiro chegar com rapidez, será apelidado de gênio, de talentoso, de sabido, e todo mundo finge que a vida inteira acreditou e torceu pelo sucesso de sua carreira artística.

Há 25 anos vivo de literatura, tenho milhares de livros comprados pela maior prefeitura do país, pelo Ministério da Educação distribuídos pelo Brasil inteiro. Fui premiado duas vezes pelo Ministério da Cultura, ganhei vários prêmios nacionais em concursos de cordel, há dois recebi o título e prêmio e título de mestre da cultura pela Prefeitura de São Paulo. Tudo isso são tijolos colocados no edifício de uma carreira construída com dedicação, apoio de tantas parcerias e humildade. Afinal não adianta construir um edifício suntuoso sem ter bases sólidas em que seja sustentado. Ser famoso pelo trabalho é interessante, mas as vezes, quando a nuvem da fama passa, se o trabalho não tiver raízes ele também se dissipa. Portanto invista sempre em sua formação se quiser permanecer relevante no meio em que atua.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O CAMINHO DOLOROSO DA ARTE

 




Viver de arte é uma das escolhas difíceis de fazer, pois sua concretização costuma ser uma batalha árdua, afinal na cabeça de todo mundo, quem escolhe este caminho, decidiu deliberadamente se tornar malandro, detesta trabalhar e vive encostado em outras pessoas. É desrespeitado desde o começo, começam a chamá-lo para se apresentar de graça, dando a desculpa de ser uma oportunidade para mostrar seu trabalho, os desrespeitosos chegam ao ponto de dizer: “você não está fazendo nada mesmo, se apresente em meu evento, estou lhe dando esta oportunidade”.

Nunca vi ninguém chamar o pedreiro, o advogado, o professor, o médico, o dentista, o engenheiro, para trabalhar gratuitamente, porém se for cantor, tocador, escritor, palestrante, poeta, em começo de carreira, receberá os convites mais estapafúrdios. Sem contar os livros que pedem, para depois não ler. É preciso ser persistente para seguir acreditando em seu potencial e não desistir. O compositor nem existe no senso comum, dificilmente alguém sabe o nome dos compositores das músicas de maiores sucessos. O desrespeito com os trabalhadores da arte é algo surreal, principalmente se não forem famosos.

Este ano, no mês de abril completarei um quartel de século vivendo como escritor, me considero um vencedor, contudo passei por cada uma, que qualquer ser humano fraco e sem objetivo claro, teria desistido nos primeiros anos de profissão. Vou citar apenas dois exemplos: certa vez, tive meu tempo cortado em um evento em São Paulo para ofertar a vez a um figurão. Quando chegou a vez dele falar, desagradou tanto, que tive de voltar ao palco para salvar o evento. Em outra oportunidade em um estado do sudeste, fui contratado com outro figurão da literatura, que estava na mídia. No término do evento vários professores e professoras disseram que a minha palestra foi melhor que a do outro, apesar disso meu cachê continuou sendo menos. Este tipo de coisa desmotiva qualquer ser humano que não tem convicção daquilo que quer. Portanto quem vai entrar para o mundo da arte, aprenda a se impor, porque do contrário estará condenado ao fracasso.

 

AS PERDAS E GANHOS NO CAMINHO...

 





Perto de completar meio século de vida, posso celebrar os ganhos como refletir sobre as perdas na caminhada, porque, se quem luta é inevitável ganhar, com o passar do tempo é também comum perder. E não precisamos nos queixar das perdas, elas são inerentes à existência. Este peregrinar pela Terra é uma rede tecida com vários novelos que vão se misturando numa perfeita simbiose, que podem resultar em coisas negativas ou positivas, a depender das escolhas feitas na viagem.

Todos os anos na Bahia visito algumas pessoas entre familiares e amigos, que tiveram a felicidade de envelhecer. Nestes meus 28 anos morando fora daqui perdi diversas pessoas caras ao meu afeto. Dos irmãos de mamãe, além dela, já morreram a maior parte dos irmãos e aqui resta apenas tia Dete, com 92 anos, mulher forte, cheia de saúde e de uma memória invejável. Seja por telefone ou pessoalmente a conversa com ela é fluida, o papo transcorre narrando coisas que vão da sua criancice até a vida adulta. Muitas coisas da família de mamãe, fiquei sabendo através dela.

Mamãe partiu com 77 anos e hoje vejo em tia Dete uma cópia fiel da fisionomia dela. Nesta mulher cheia de ternura, nunca ouvi uma má palavra da sua boca, tampouco guardou magoa nem rancor de ninguém, mesmo as pessoas que lhe causaram ofensas e humilhações, ela jamais disse nada que ofendesse. Sempre cultivou a espiritualidade e todas as vezes que nos encontramos, a gargalhada corre solta porque ela me conta cada casos fabulosos para sorrirmos. Cada ano que lhe encontro compenso as perdas que já tive em relação a família de mamãe. Ontem visitei-a mais uma vez com minha prima Gileide e seu esposo Celso. Tia Dete segue vendendo saúde e lucidez.

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A TRAGÉDIA DO FEMINICÍDIO

 


Você deve estar estranhando meu post no último dia do ano, mas não posso fingir que nada aconteceu aqui no povoado Salgado ontem, quando fomos surpreendidos pelo horror do feminicídio. Hoje não existirá feliz ano novo para as famílias de quem morreu e de quem matou, tampouco para uma criança privada da presença carinhosa da mãe. A humanidade caminha para o colapso, tendo em vista que somos a única espécie que nos autodestruímos. As famílias precisam mudar o rumo da educação dos filhos, porque deve existir algo de errado, a julgar pela quantidade de homens matando mulheres, unicamente pela sua condição de ser mulher.

Nestas pequenas comunidades, normalmente as pessoas se conhecem, os filhos são criados juntos, boa parte são parentes. Cresce entre a gente um instinto de proteção coletiva. Primos se casam com primas, famílias amigas se tornam a mesma família por conta dos casamentos, do compadrio, enfim todos constroem laços afetivos. Infelizmente nem isto tem bastado, porque o Brasil se tornou um país com uma estatística terrível, a cada seis horas uma mulher é morta por dizer não. É urgente os meninos aprenderem a respeitar o término dos relacionamentos. Todas estas violências são filhas do patriarcado, que se torna machismo, migram para a misoginia e findam no feminicídio. É pela condição dela ser mulher que o crime acontece, pois se fosse com um homem dificilmente agiria desta forma.

Urge os rapazes acatarem o não, pois ninguém é dono do corpo delas, que podem rejeitar quem não lhe agrade mais. As meninas devem se proteger, percebendo os sinais violentos nos “machos” ridículos, para evitar o relacionamento, onde exista a possibilidade de colocar a sua existência em risco. Lamento que esta violência dilacerante tenha chegado ao pacato povoado e tirado precocemente a vida de Joseane Santos de Jesus, mais uma vítima da covardia masculina. Até quando o corpo das mulheres servirá como objeto de pancada de homens violentos e desiquilibrados? Que neste novo ano, passemos a refletir e combater este mal, conversando sobre este assunto no dia a dia, para revertermos este quadro tenebroso que tira a vida de milhares de mulheres.

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

AGRADECIMENTO A PAPAI

 




A cada ano que retorno para rever os familiares surgem algumas perguntas: valeu a pena me afastar dos meus pais? No passado, com a experiência de hoje, teria coragem de fazer a mesma coisa? Encontrei o que procurava? Realizei os sonhos? São perguntas difíceis de responder, porque cada atitude tomada é feita a partir dos elementos cognitivos que temos. De uma coisa tenho certeza: é ruim não conviver com os pais, se temos uma relação saudável.

Reencontrar papai é uma bênção, todavia é impossível recuperar os 28 anos distante de sua presença física. Neste período aconteceram coisas comigo e com ele, que não acompanhamos, e por mais que contemos, pormenorizadamente, é difícil alcançar a dimensão. Por isso, as relações devem ser intensas, para ao menos se tentar preencher as lacunas abertas pelos anos.

Papai, como dizem no Nordeste, possui o calete bom, e antes que alguém diga que não sabe o que é, calete significa (compleição física, constituição robusta, qualidade, categoria) está no dicionário. Normalmente, as pessoas dizem essa palavra em relação a não ter cabelo branco, por isto bem conservado. Papai é destes que tem pouco cabelo branco, contudo em cada fio pintado pela tinta dos anos, percebo o acúmulo de experiência, de aprendizado, acompanhados pela preocupação para criar uma família numerosa.

As carcarquilhas do seu rosto trazem as marcas do sol causticante que lhe roubou muito suor, em alguns anos sequestrou a plantação e em outros impediu uma colheita farta, mas quando foi equilibrado proporcionou uma produção generosa. Os homens do campo são castigados pelo clima, afinal todo floricultor terá as mãos cheirosas, como toda pessoa queimada pelo sol trará as rugas na pele. Agradeço a papai, o pai que foi e tem sido. Espero que ele desculpe as minhas falhas e ausências, porque cobranças eu não tenho direito de fazê-las a quem fez o possível para que eu tivesse o necessário.

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ENFRENTAR COM RESIGNAÇÃO




 

Toda pessoa que passa por uma enfermidade grave, precisa reaprender um monte de coisas, inclusive a sorrir, brincar que é o que Erivania e eu sempre fizemos juntos. Diante de tudo que ela passou, continuar viva, se recuperando é uma benção que devemos agradecer sempre, e por isso cá estamos, voltando a dar o ar da graça, lembrando que a vida segue nos brindando com a sua presença e nos oferecendo a oportunidade de aproveitar da presença amorosa daqueles e daquelas que nos rodeiam e se tornaram o amparo necessário nos momentos aflitivos.

Este período que ela vive me lembra os dois últimos anos de vida de mamãe, com uma grande diferença, que Erivania está se recuperando com a possibilidade de voltar a andar. Mamãe, infelizmente não teve essa chance, tendo em vista as comorbidades e a idade.

Não estou fazendo nenhum exibicionismo, apenas refletindo sobre um assunto que carece de nossa atenção, que é o autocuidado que deve ser levado a sério, em vista de evitarmos um mal maior. Ter a consciência de que, quando o cuidado não bastar, poderemos contar com o auxílio da ciência, que pode ser ajudada pelo recurso da fé para quem possui alguma crença.

Diante de qualquer adversidade é importante saber que o amor da família é parte essencial para uma recuperação plena e menos dolorosa. A positividade de todos é um fator decisivo para se conquistar a saúde desejada e o equilíbrio sonhado.

sábado, 27 de dezembro de 2025

AS BRINCADEIRAS DE ERIVANIA

 



Ninguém pode frear o dinamismo existencial. Ano passado todos lembram das minhas brincadeiras com Erivania, sempre em movimento, porém atualmente ela está se readaptando a uma nova realidade, imposta por uma enfermidade que acomete mais de 50 milhões de pessoas em todo planeta. A diabetes pode se tornar uma doença limitante, pois tem levado pacientes a viver de outra forma. É preciso um esforço imensurável para aderir com resignação e amor para encontrar leveza e tornar o fardo leve e suave.

O seu período de adoecimento foi pesado e doloroso, contudo a graças a fé, a vida continuou estuante. Graças aos cuidados médicos, Deus lhe ofereceu mais uma oportunidade de aprender que ela é um bem precioso, ainda que estejamos limitados. Erivania sempre foi ativa, exerceu diversas atividades, deu conta do serviço doméstico e gratuito feito pelas mulheres, sem contar a responsabilidade da maternidade.

É necessário maturidade em vista de seguir em frente, buscar caminhos para facilitar aquilo que as circunstâncias dificultaram. Erivania continua brincalhona, mas vez por outra lhe pego com este olhar fixo na imensidão, talvez meditando sobre essa nova etapa que enfrenta nesta seara planetária, ter de se acostumar que agora precisa contar com a solidariedade de quem se encontra mais perto. Nestes momentos vemos que não somos autossuficientes em absolutamente nada, nos acontecimentos simples complexos podemos entender que nossa existência é uma teia tecida pela fraternidade.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O QUE É MACHISMO?

 



Pedi a musa divina

Para ficar do meu lado,

Me inspirar cada verso,

Poético e metrificado.

Com o leitor compartilho

A descrição de um filho

Filho do patriarcado.

 

O nome dele é machismo

Sistema velho de crenças

Espalhadas no planeta

Baseado em diferenças

Julgadas superiores

Nesta lista de horrores

Tem perigosas sentenças.

 

Dentre as obras que publiquei no decorrer deste ano, se encontra esta que discute um assunto estrutural clamando em ser superado, mas que infelizmente, cada vez mais mostra sinais de sua força e penetração nos meios da sociedade, que por ser patriarcal, se espalhou nos segmentos sociais. Muitas vezes se mostra sutil, porém em várias ocasiões se revela causador de sofrimento imensurável nas vítimas. Ele causa dicotomia: as mulheres que sofrem seu peso, reclamam da opressão, enquanto os causadores afirmam que não existe, que é uma invenção delas, daí não assumirem sua prática, elas continuam oprimidas e silenciadas pelo seu poder destruidor.

O cordel sempre foi uma ferramenta de conscientização, por esta razão procuro discutir estes temas relevantes para que a poesia ajude a debater este assunto que fere, quando não de morte, machuca o íntimo das pessoas. Quem escreve deve apontar sua caneta para impulsionar a discussão e ajudar no crescimento, sobretudo dos homens em quem o machismo está impregnado e causando destruição. É preciso educar os meninos de forma diferente, porque só assim o machismo será banido da sociedade.

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL PARA CELEBRAR O QUE MESMO?

 




A primeira vez que ouvi falar em celebração de Natal, foi no ano de 1987 quando fui passear em São Paulo. Passei esta data na casa de Tio Belo e tia Deci numa festança animada. Para mim uma criança de apenas nove anos, tudo era novo e bonito, até que por um tempo aceitei que as luzes teriam alguma relação com Jesus de Nazaré, mas bastou um bocadinho de entendimento para ver que não faz jus ao divino mestre.

Com o passar dos anos fui amadurecendo e entendendo que cada vez mais as comemorações se afastavam do personagem que se pretende homenagear. Gradativamente Jesus vem sendo substituído pelo tal do Noel e, por um consumismo desenfreado, pessoas que naufragam no mar revolto de dívida, em nome de uma comemoração vazia que afaga mais o próprio ego, ao invés de dominá-lo. A força de Jesus Cristo é tão grande que ocupou o lugar de uma festa pagã para que o divino mestre se tornasse o sol brilhante na vida das pessoas que dizem acreditar nele, porém o consumismo, as luzes, o papai Noel são invenções do capitalismo tomando o lugar do aniversariante.

Depois de mais de trinta anos, estou passando o natal com papai e dois irmãos na roça, sem nenhuma comemoração, mas ao menos posso enxergar as estrelas sem as luzes artificiais, papai homem de costume rural já está devidamente deitado e os dois irmãos interneteiros no lugar que todo adolescente da idade deles estão agora: grudados na tela de um celular perdendo tempo com o nada, deixando de viver o presente e comprometendo gravemente o futuro. Confraternizar entre família e amigos é salutar, escrever e pensar sobre a sociedade líquida e vazia que vivenciamos também pode ser útil. Torço para que nesta data, Jesus possa romper a barreira criada pelo ódio, pelo escárnio contra os pobres, para que o amor e a fraternidade possam ocupar o vácuo existencial. Que as pessoas voltem a dialogar umas com as outras e os celulares ocupem menos espaço entre os seres humanos.

sábado, 20 de dezembro de 2025

OFÍCIO DA ESCRITA

 



Quem vive da escrita, precisa enfrentar os perrengues vindos deste ofício, porque em qualquer missão, estamos sujeitos aos altos e baixos. Às vezes você pode ser um excelente escritor, entretanto nunca ter um livro que alcance o grande público por falta de uma divulgação poderosa. Nem sempre o best seller é a melhor obra em conteúdo, contudo a campanha de propaganda consistente, pode levá-lo a alcançar uma inserção considerável. Em alguns casos o livro acontece pela propaganda feita de boca em boca, mas como é uma exceção, não serve como parâmetro.

Temos livros de cordel excelentes, porém como nunca tiveram uma campanha publicitaria adequada, ficam restritos ao pequeno público, impossibilitado de ser uma fonte inesgotável de sabedoria, que poderia atingir milhões de leitoras e leitores. Apesar da internet nos possibilitar fazer a nossa própria divulgação, nem sempre o autor sabe trabalhar adequadamente com as ferramentas que ela nos oferece, por isso, precisamos ter em mente, que o investimento na divulgação deve considerado da mesma forma que separamos o dinheiro para impressão.

Para exercer o ofício, devemos respeitar a nossa atividade, para que jamais lancemos de qualquer jeito, sob pena de ficarmos sem o respeito de quem a consome. Do folheto ao livro, precisamos caprichar na qualidade para evitarmos as críticas negativas, porque se já difícil com as pessoas falando bem, imagine quando se espalha negatividade. O ofício de poeta deve ser exercido com todo esmero possível para que a sua produção seja um louvor a poesia para que se torne ainda mais conhecida e amada.

 

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O PRIMEIRO CORDEL PUBLICADO NA LUZEIRO

 


Conheci o cordel lendo os folhetos da Editora Luzeiro, feitos com capa colorida, tamanho 18 por 13,5 cm, diferente daquele menor, em sua maioria sempre preto e branco. Papai comprava-os na feira de Ribeira de Pombal, na Bahia, deste modo esta literatura povoou meu imaginário. O fato dele escrever me inspirou a compor os primeiros versos ao seu lado, depois encontrar o caminho sozinho, tendo em vista que parti de casa, fiquei sem o companheiro de escrita, daí tive de me virar sozinho. Em 2001 lancei a primeira obra, trilhei por veredas, enfrentei espinhos, até as portas da Luzeiro se abrirem para mim, em 2006. Nesta época já tinha vendidos cerca de 20 mil exemplares.

A importância dessa casa publicadora era grande ao ponto de os poetas entenderem como grande, qualquer autor publicado por ela. Considerei uma conquista enorme ter O MASSACRE DE CANUDOS lançado pela mais respeitável editora de cordel do Brasil. Tive a notícia de que o cordel seria publicado através de Marco Haurélio, ainda no último ano de faculdade. A impressão foi feita em 2007, e eu já residia aqui em São Paulo. Lego fui conhecer o editor Gregório Nicoló, e daí por diante nossa amizade cresceu ainda mais.

Ao pegar o folheto em mãos foi uma emoção indescritível, finalmente era publicado por uma editora que não precisei gastar nada, recebi o direito autoral, a chamada conga. Como era praxe no meio cordelístico, vendi a obra para esta casa publicadora. Canudos sempre foi um assunto relevante, daí foi parar nãos páginas da Caros Amigos através do jornalista Nicodemus Pessoa. O folheto deu tão certo, que depois Gregório resolveu lançá-lo no formato de livro, provando a pujança que a poesia cordeliana vinha ganhando nos anos 2010. Canudos continua ainda desconhecido para muitos e precisamos de novos olhares sobre esta página da história brasileira.

 

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